WAYNE COUNTY: CONTOS DE INKSTER

Contos de Inkster: Inferno gelado

Por Thiago Salles

A noite era fria como o inferno, rangendo os dentes sob uma bocarra maldita que se abria para o céu noturno. Ondas sonoras invadem os ouvidos, e desejo realmente ser surdo. Elas entram em minha mente como vermes infernais que devoram meu cérebro. Um névoa irrespirável separava os prédios, e o cheiro de azedume vindo das tripas desta fera maldita fazia com que qualquer um se recusasse a estar vivo.

O rádio gritava comigo. Assim como tudo neste lugar maldito. As pessoas, os carros, até mesmo os animais gritavam e sussurravam com suas vozes ensurdecedoras no dia a dia.

“A noite mais fria do ano está sobre nós” dizia a mulher no rádio em tom de alegria e celebração.

Fácil para ela dizer...

Estava a quilômetros de distância desse desolado inferno. 

As centenas de casas abandonadas, lares disfuncionais, corpos, sangue, urina e sêmen nas ruas separava aquela inútil repórter da realidade por ela narrada. 

O sorriso irritante era como uma afronta. Mas ela sabia disso. Todos eles sabem.

Enquanto os engravatados estão em seus castelos consumindo sexo drogas e qualquer tipo de saída da realidade, nós, buscando os mesmos propósitos compomos a base da pirâmide que os sustenta. Nossos corpos são como pilares dessa engrenagem maldita. A cada segundo que passa, o ecoar de nosso mecanismo chora em gritos fartos, implorando para que o Juízo Final nos tire de nossa realidade.

Mas não, o destino seria piedoso demais se nos poupasse assim. Seria preciso mais.

Aqui, do alto desse belo prédio abandonado no interior de Inkster, vejo a realidade como ela é, se dissipando entre as linhas de poluição.

A vida como ela realmente é.

Suja, cruel e avassaladora. 

No silêncio da madrugada, a cidade grita.

E nela, ninguém descansa.

Os demônios voam livres no céu essa noite.

Deitado na beira dessa árvore morta, algo parece fazer um certo sentido.

Vibrando no meu bolso, percebo sua intenção, mas não me assusto, muito pelo contrário.

Agarro a oportunidade como nunca havia agarrado algo antes.

Um suspiro, um deleite. 

Sinto o um frio caloroso percorrendo meus dedos.

O coração se acelera naturalmente. 

Uma gota de suor quase congela, caindo lentamente.

Os minutos se arrastam.

E um sorriso doentio abre-se em minha boca.

Me assusto.

Me alegro.

O vento frio cessa, junto com os gritos e os sons das sirenes.

De alguma forma, não tremo.

O destino parece sorrir junto comigo.

Os segundos param de correr mais uma vez.

Teriam se passado horas que estava ali?

Não importava mais.

Tudo se resumia naqueles poucos segundos que se referiam a minha vida inteira. Minha cabeça aprece pesada. mais do que o normal. 

O peso dos pensamentos me consome. Era tudo demais para mim. 

Meu emprego, minha família, minha esperança...

Neste canto da cidade, todas as coisas morrem. Todas as coisas terminam.

Preciso apoiar meus pensamentos pesados.

Algo frio toca minha têmpora.

Tudo fica mais leve, perfeito.

Deito minhas costas pesadas nessa árvore, tão morta quanto eu.

Era um reflexo fantasmagórico de meu interior morto.

Os pensamentos de minha vida rompem como uma maré, vertendo agressivamente em cada célula do corpo. 

Elas parecem festejar, supondo o que está por vir.

O vento trás um zumbido peculiar em meus ouvidos, como se um inseto estivesse dentro de meu crânio, lutando para sair. Ele luta, arranha, e rasga meu cérebro junto com as memórias de uma vida que foi, e do que poderia ter sido. Cada oportunidade, cada esperança, cada momento vívido que poderia me tirar dessa vida maldita, surgem de minha mente.

O zumbido começa a se tornar cada vez mais incômodo, me fazendo retorcer minha cabeça em agonia. O sorriso volta de maneira ameaçadora. Minha mão dá uma leve tremulada diante da brisa.

Já era o bastante.

Um estalo finalmente me arrebata.

Pássaros noturnos voam da árvore morta, que em lamento deixa cair o último ramo esverdeado de sua cruel existência. Sinto o sangue escorrer lentamente saindo de meus ouvidos. O zumbido cessa lentamente. O tempo, volta a passar normalmente em Inkster.

As sirenes voltam a ecoar.

E pela última vez em meus ouvidos, ouço alguém sussurrar em meus ouvidos.

“A noite mais fria do ano está sobre nós...”

As cortinas fecham, e Inkster dorme.